Visitar a mostra “Di Cavalcanti: Militante, Boêmio e Brasileiro” no MAC USP é lembrar por que Di Cavalcanti continua sendo um dos nomes mais vivos, e necessários, do modernismo brasileiro. A exposição, com seus 115 desenhos distribuídos em seis módulos, não é só um panorama cronológico, é um chamado para observar o artista para além da figura icônica, com todas as contradições e ousadias que construíram sua obra.
O recorte curatorial acerta ao dar espaço ao período parisiense, que muitas vezes é lembrado de forma quase folclórica. Aqui, ele ganha densidade, percebemos um Di Cavalcanti observador, atento ao mundo, testando linguagens e absorvendo referências que mais tarde seriam devolvidas ao Brasil com um sotaque muito próprio. Já o módulo sobre seu engajamento social faz o oposto, traz o artista de volta ao chão, ao cotidiano, às pessoas que compõem a paisagem real das cidades brasileiras. É onde seu traço fica mais humano e, curiosamente, mais político.
Mas talvez o momento mais potente da exposição esteja no diálogo com outros artistas. Ver obras de Anita Malfatti, Volpi, Portinari e até Picasso do lado dos desenhos de Di Cavalcanti não é apenas um recurso elegante, é um lembrete de que a arte brasileira nunca existiu isolada. Ela se contaminou e se chocou, e Di Cavalcanti foi uma das pontes mais abertas desse processo. Ao colocar o artista nesse ecossistema, o MAC USP recoloca Di Cavalcanti no centro de debates que ainda reverteram hoje.
No fim, nós saímos com a sensação de que esta exposição faz algo raro, devolve frescor a um artista que muitas vezes foi reduzido a rótulos. Aqui, ele não é só o boêmio, o militante ou o brasileiro, é sobretudo, alguém que acreditava na arte como experiência viva. E é exatamente assim que sua obra aparece no MAC: pulsando.


