MuBE: A Terceira Margem da Cidade: Paulo Mendes da Rocha e os Desafios da Vida no Planeta

Visitar o MuBE é um encontro com questões que fazem parte do nosso tempo. A exposição “A Terceira Margem da Cidade: Paulo Mendes da Rocha e os Desafios da Vida no Planeta” não se mostra de forma rápida. Ela exige envolvimento. E isso começa antes mesmo das obras, no próprio prédio.

O edifício do MuBE, com seu concreto aparente e sua estrutura aberta, é quase uma obra em si. Caminhar por aquele espaço faz o corpo perceber o peso da arquitetura e como ela se impõe sem tentar agradar. Não há ornamentos nem tentativas de suavização. O prédio é direto, forte, e nos coloca dentro de uma escala que ultrapassa o indivíduo. Essa experiência dialoga intensamente com o que a exposição propõe.

Ao longo da visita, o planeta aparece como questão constante. A água surge como elemento central, não apenas como natureza, mas como algo essencial e cada vez mais ameaçado. Em um momento em que falamos tanto sobre crise climática e desequilíbrios ambientais, essa presença funciona como um alerta discreto, mas difícil de ignorar.

Dentro desse contexto, uma das obras que mais me encantou foi a dos barquinhos de papel, dispostos sobre a mesa central. Ao vê-los, lembrei imediatamente da pintura Barquinhos de Papel, de Portinari. Para mim, esses barquinhos se parecem com memórias. São frágeis, delicados, e ainda assim continuam ali, como se insistissem em existir apesar da possibilidade de desaparecer a qualquer instante. A relação com a água é inevitável: ela sustenta, mas também pode levar tudo embora.

A obra que mais ficou comigo, no entanto, foi a bicicleta com tijolos, de Héctor Zamora. Ver aqueles tijolos empilhados sobre a bicicleta me fez pensar em equilíbrio e fragilidade. O peso é real, quase desconfortável, e entra em choque com a ideia de movimento e liberdade associada à bicicleta. A obra sugere esforço, sobrecarga e uma tentativa constante de manter tudo no lugar.

Tudo parece instável, como se pudesse ruir a qualquer momento, mas permanece. Essa sensação se conecta diretamente ao prédio do MuBE, que se sustenta por grandes vãos e massas de concreto. Assim como a bicicleta, a arquitetura também carrega peso e continua de pé. Existe algo muito próximo da experiência humana nessa relação.

O que mais me marcou nessa exposição foi perceber como arquitetura e obras se misturam de forma natural. O visitante entra nesse diálogo quase sem perceber e sai com outra percepção. Ao deixar o museu, a cidade continua a mesma, mas o modo de olhar para ela muda.

O MuBE hoje é um lugar que provoca reflexão sem recorrer a discursos óbvios. A arte não se encerra na visita. Ela acompanha.