A experiência na ArPa 2026 já começa de forma marcante logo na entrada, com a descida pela escada rolante que conduz o público diretamente para o pavilhão. Sair da rotina para observar a arte de perto é o tipo de quebra que devolve a capacidade de focar a atenção nos detalhes. Na edição deste ano, montada na Arena Pacaembu, o circuito estritamente comercial ficou em segundo plano diante do forte impacto físico das obras.
O grande mérito disso está na curadoria fina da feira. Existe um desenho inteligente no espaço que foge da lógica fria de um mero labirinto de estandes. Os diálogos propostos entre galerias consagradas e novos espaços criam um ritmo dinâmico de caminhada. Essa seleção minuciosa convida o visitante a olhar o conjunto de forma coesa, em vez de focar apenas em peças isoladas. Estar ali, diante da matéria, traz descobertas que nenhuma tela de celular consegue antecipar.
Abaixo, estão destacados quatro pontos que chamam a atenção durante o percurso pela feira.
A cômoda de Karen de Picciotto atrai o olhar pela técnica brutalista. A artista lança esmalte sintético sobre o mobiliário usando o vento de ventiladores industriais. O jato acumula a tinta de forma irregular, criando uma crosta espessa e cheia de relevos. O móvel perde o aspecto puramente funcional e passa a parecer um objeto antigo que foi fossilizado pelo próprio acabamento, congelando o movimento do vento na madeira.
Nas telas de André Griffo, o interesse se concentra na construção da pintura. São abstrações potentes, feitas com camadas sucessivas de tinta que depois são raspadas. Esse processo deixa visíveis os rastros e as cores que ficaram por baixo, transformando em uma espécie de mapa de sobreposições. É um trabalho denso, que pede tempo para que se consiga decifrar a profundidade de cada mancha.
Mais adiante, uma instalação feita com entulho traduz com precisão a paisagem urbana das cidades brasileiras. O trabalho utiliza pedaços de concreto, tijolos aparentes e reboco quebrado para recriar a arquitetura improvisada das periferias. O contraponto delicado fica por conta de pequenos vasinhos de plantas colocados em cima de banquinhos no meio dos escombros. Trata-se de um retrato fiel do afeto e do cuidado que resistem mesmo na escassez.
O rigor geométrico aparece forte no estande do alemão Wolfram Ullrich. Olhando de longe, tem-se a certeza de que são blocos tridimensionais pesados flutuando na parede. A aproximação, no entanto, revela o artifício: são relevos de aço cortados em ângulos milimétricos. O artista manipula a perspectiva e as sombras de um jeito tão exato que cria uma ilusão de ótica perfeita, desorientando a percepção espacial de quem observa.
O passeio pela feira termina com a sensação de um repertório visual renovado. Ser provocado por novos artistas e sair do pavilhão com novas ideias é o melhor sinal de que a visita à ArPa 2026 cumpre o seu papel.







