Damián Ortega e a Desconstrução do Objeto no MASP

A exposição do artista mexicano Damián Ortega ocupa as galerias do MASP com obras que operam no limite entre a escultura e a mecânica. Ortega trabalha a partir de itens ordinários, retirados de contextos industriais ou domésticos, reorganizando-os no espaço para subverter sua utilidade original.

O percurso da mostra evidencia como o artista modifica a percepção do público diante de elementos que costumam passar despercebidos na rotina urbana.

A instalação “Cosmic Thing” ancora a atenção do público logo no início. O trabalho consiste em um Fusca desmontado, com seus componentes suspensos individualmente por fios de aço. A disposição das peças cria um diagrama tridimensional flutuante, que permite o trânsito do visitante por dentro da estrutura fragmentada do veículo.

O princípio da fragmentação física se repete em “Controlador do Universo”. Nesta obra, Ortega utiliza ferramentas manuais de ferro, como martelos e serras, distribuídas no ar em um alinhamento preciso. A instalação reúne dezenas desses itens suspensos, gerando a impressão de uma explosão congelada no tempo.

A exatidão técnica da mostra também aparece em trabalhos de escala gráfica. Em uma das salas, vergalhões de metal curvados dependem do teto sem uma ordem aparente. O sentido do arranjo se completa por meio da iluminação direcionada: os focos de luz projetam sombras no piso que desenham, de forma exata, as cinco vogais do alfabeto.

Ao aproximar materiais pesados da construção civil à sutileza da escrita, Ortega transfere o peso do aço para o plano imaterial da luz. A mostra se consolida como um exercício analítico sobre o que acontece quando desmontamos a lógica visual das coisas.