A exposição “Sou o Outro do Outro”, da cenógrafa britânica Es Devlin, na Casa Bradesco, oferece uma imersão técnica sobre a percepção humana. A artista, responsável por cenários complexos de grandes turnês mundiais, aplica uma curadoria que transforma a arquitetura em ferramenta de questionamento.
A proposta curatorial evita a observação passiva. O percurso é desenhado para que a estrutura física dialogue com a presença do público. A transformação de uma biblioteca funcional em um labirinto de espelhos ilustra o objetivo central da mostra: a fragmentação da identidade. Dentro desse labirinto, o visitante perde a referência do próprio corpo em meio aos reflexos infinitos. A arquitetura torna-se um ambiente instável, onde a imagem do espectador se mistura com as paredes. Esse efeito questiona a estabilidade da identidade, sugerindo que quem somos muda conforme o ângulo e a luz do ambiente. O público deixa de observar a cenografia de fora para se tornar o sujeito do espaço.
A habilidade de Devlin com escala e perspectiva aparece na sala dos pássaros de papel. O uso calculado de luz e sombra cria a ilusão de movimento em elementos estáticos. Esse rigor técnico demonstra o uso do espaço para ditar o ritmo da visitação, conduzindo o público a momentos de introspecção.
O ponto final da mostra reforça essa visão sobre a interdependência. A curadoria encerra o ciclo artístico com a distribuição de desenhos que exige interação. A disposição das obras, muitas vezes em alturas de difícil acesso, provoca uma colaboração física entre os visitantes.

