Nazareth Pacheco no MuBE

 

A visita ao Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE) revela a força da exposição “Jogos de Contaminação”, da artista Nazareth Pacheco. Sob a curadoria de Amanda Tavares, a mostra exibe obras marcadas por intensos tratamentos médicos e pelas rígidas imposições estéticas enfrentadas desde a juventude. A produção de Pacheco usa a arte como um canal de expressão e transformação, colocando o espectador diante de uma dualidade incômoda, onde o fascínio e o perigo se encontram.

O que mais impressiona ao caminhar pela mostra é a forma como a criadora manipula elementos antagônicos. Lâminas de barbear, bisturis, agulhas e metais pesados são meticulosamente costurados com elementos delicados e brilhantes, a exemplo de cristais de vidro e miçangas. Esses objetos ganham formas de adornos e estruturas corporais que parecem belas à distância, mas revelam seu potencial lesivo de perto. Elementos como frascos de sangue e máscaras faciais expõem a frieza dos protocolos médico-estéticos. Conforme aponta o texto de parede da curadoria, “nesta exposição, sedução e perigo costumam estar no mesmo time. Faz parte do jogo”.

Essa coleção de peças esculpidas funciona como um manifesto crítico que questiona até onde a sociedade está disposta a ir em troca de um ideal inatingível de perfeição corporal. Ao transformar a dor em matéria de arte, a artista converte suas cicatrizes em um espaço de diálogo coletivo, lembrando-nos de que o corpo é, ao mesmo tempo, nossa morada mais frágil e nosso campo de batalha mais forte.