Conhecer a Casa Ateliê Tomie Ohtake permite entender de perto o diálogo entre mãe e filho que se estendeu por décadas. O refúgio de concreto, idealizado por Ruy Ohtake em 1968, serviu de cenário para a vida e a obra de Tomie até os seus 101 anos. O que realmente impressiona no projeto é o uso das curvas e da iluminação zenital (aquela luz natural que desce do teto), criando uma claridade que abraça as telas de forma quase que poética.
Um detalhe fascinante é que o ateliê não possui portas. Ele se integra totalmente à residência porque, para Tomie, a arte e a rotina eram indissociáveis. Ruy definia esse estilo como “casa-praça”, priorizando espaços amplos que favorecem o convívio. Pela relevância dessa arquitetura para a identidade de São Paulo, o imóvel foi oficialmente tombado pelo patrimônio histórico em 2013.
Essa mesma estética, tão particular e sensível, encontra um eco surpreendente na paisagem de quem passa perto de São Caetano, no Heliópolis.
Os “Redondinhos”, famosos prédios da comunidade, carregam o DNA exato da casa da artista. O diferencial dessa história é que Ruy Ohtake não projetou o conjunto habitacional de dentro de um escritório; ele fez questão de ouvir quem ocuparia o espaço. Em reuniões com os moradores, ele entendeu as reais necessidades de quem vive ali.
Partiu das próprias famílias a ideia de eliminar os corredores internos, o que garantiu apartamentos com maior área útil. Além disso, o formato cilíndrico (marca registrada do arquiteto) cumpre uma função técnica essencial; permite que o sol e a ventilação alcancem todas as janelas de maneira igual.
É inspirador perceber como o traço que criou um ateliê sofisticado foi o mesmo que buscou soluções dignas para a habitação popular. No fim das contas, a arquitetura de qualidade se prova na capacidade de ouvir e transformar concreto em acolhimento. É o tipo de descoberta que muda nossa forma de enxergar os detalhes da cidade.

