Claudia Alarcón No MASP

A ocupação de Claudia Alarcón & Silät no MASP exige uma entrega diferente. O trabalho delas pede proximidade e quebra aquele distanciamento frio que a gente costuma sentir nos museus.

Quem entra na galeria e se depara com aquele mar de tramas e bolsas penduradas sente um impacto imediato. Ali está a vida de centenas de mulheres do povo Wichí pulsando no coração da Avenida Paulista, muito além de uma estética decorativa ou de um artesanato apenas contemplativo.

A primeira coisa que a gente precisa entender é a origem dessa arte. Elas trabalham com o chaguar, uma planta fibrosa que nasce no mato. Elas mesmas colhem, desfibram, limpam e fiam. As cores que você vê (esses tons de terra, ocre e cinza) vieram de raízes, cascas de árvores e frutos, longe de qualquer tubo de tinta comprado em loja.

Esse processo ignora a nossa pressa moderna. Enquanto a gente vive grudado no relógio, elas respeitam o tempo da planta e o tempo das mãos. Cada peça ali carregou semanas e meses de uma dedicação silenciosa.

As yicas, aquelas bolsas tradicionais que ganham as paredes, são o centro de tudo. Para o povo Wichí, elas sempre serviram para carregar o básico do dia a dia, mas a Claudia levou esse uso para outro patamar. Ela resgatou o “ponto antigo”, uma técnica de costura que as avós usavam e que estava quase sumindo.

Ao trazer esse ponto de volta, ela reescreveu uma história que tentaram apagar. Os desenhos geométricos funcionam como códigos e mensagens; são uma forma de dizer: “Nós ainda estamos aqui e nossa cultura é gigante”.

Ver a obra da Claudia Alarcón traz um choque de realidade necessário. Em um mundo tão digital e plástico, encontrar algo feito de suor e fibra natural é transformador. Ela prova que a arte dessas mulheres tem a mesma força e importância que os quadros de pintores famosos que a gente estuda.