A abertura da exposição de Beatriz Milhazes na Pinacoteca Estação serviu para entender como a produção gráfica da artista funciona como um laboratório essencial de pensamento. No meio do fluxo da estreia, focar nas gravuras e colagens expostas revelou a verdadeira mecânica do vocabulário visual de Milhazes: um processo contínuo de sobreposições onde a herança do modernismo e o peso histórico do barroco se chocam e se organizam.
Essa fusão fica evidente nas composições repletas de arabescos, rosáceas e mandalas. O barroco brasileiro surge na profusão, no excesso ornamental e na sensação de movimento que parece transbordar dos limites do papel. No entanto, o que impede esse acúmulo de se transformar em caos é a herança do modernismo e da abstração geométrica. Há um diálogo claro com a organização estrutural de Tarsila do Amaral e o manejo das cores de Matisse. O rigor das linhas retas e dos círculos modernistas funciona como uma grade que abraça, contém e dá ritmo a toda aquela exuberância ornamental herdada do barroco.
A técnica do monotransfer e as gravuras exibidas expõem esse pensamento em camadas. Cada forma não anula a anterior; elas se acumulam de modo que o olho do espectador é forçado a escavar a imagem. Uma forma geométrica modernista, de cor plana e sóbria, de repente serve de fundo para o desenho curvilíneo e quase dramático de um arabesco barroco. Essa sobreposição cria uma profundidade que desafia a bidimensionalidade do suporte, transformando a superfície lisa das gravuras em um campo de forças histórico e estético.
Acompanhar a abertura dessa mostra na Estação permitiu ver de perto essa engenharia visual em funcionamento.

